20 de setembro de 2004

há monstros em cima da cama

Estreou na Alemanha o novo filme do realizador Oliver Hirschbiegel, autor do excelente filme A ExperiênciaDas Experiment»), baseado no romance de Mario Giordano, «Black Box», que por sua vez foi inspirado no projecto da Experiência da Prisão de Stanford, e que, entre outros prémios, ganhou o Prémio Especial do Júri do Fantasporto de 2002. A Experiência é um filme soberbo, uma incursão no mais íntimo da pessoa humana: são observados à lupa o medo, as relações de poder, a liberdade, a dignidade humana.
Desta vez, Hirschbiegel mostra o percurso dos últimos dias de Adolf Hitler, no filme «Der Untergang» («O Crepúsculo»), que está a comover e a agitar a Alemanha. Neste filme, o realizador mostra o "lado humano" do ditador. Mas que digo eu? Melhor dizendo, neste filme, o realizador mostra a persona do ditador.
É mesmo essa a intenção do autor. Diz Hirschbiegel que «o perigo é o de reduzir este homem a um monstro ou criar um mito saído de uma personagem de banda desenhada. É um insulto às vítimas querer que ele não tenha sido um ser humano, o que significaria que então que ele teria sido um demónio fundado sobre o povo alemão ou um maníaco incapaz de assumir a responsabilidade dos seus actos. Ora ele sabia exactamente o que ele fazia em cada momento da sua vida e, com ele, todos os que o seguiam, o que representa uma grande parte da sociedade alemã. É somente mostrando Hitler como ser humano que fazemos justiça às vítimas».
Não pensar
Como já tive oportunidade de escrever na minha Terra preferida, a rotulagem dos autores de actos de maldade, por mais bárbaros e cruéis que sejam, tem o inconveniente não apenas de fazer esquecer as causas mais profundas que estão na origem dos actos de terrorismo ou dos crimes contra a humanidade, mas também de rejeitar a evidência de que a natureza humana é uma realidade complexa e que o bem e o mal fazem parte de nós. Apelidar de desumanas todas as manifestações do mal e de monstros os seus autores, é remetê-los para uma esfera externa à humanidade, de que nós (os "bonzinhos") estaríamos a salvo pela nossa intrínseca bondade natural. Eles, os "maus", fizeram e fazem os actos que repudiamos e que nos levam a julgar e condenar facilmente os seus autores. Com demasiada leviandade, para fugir à questão que não queremos enfrentar.
Quantos de nós podemos assegurar, por exemplo, que, nas mesmas circunstâncias (o tempo, o lugar, a educação, etc.), não seríamos apoiantes de Hitler na Alemanha dos anos 30? Quantos de nós não seríamos apoiantes desse monstro desumano? Ou, num qualquer país do Médio Oriente, nascidos numa família muçulmana, quantos não seríamos seduzidos pelos cânticos paradisíacos do Hamas?
Não ver
Se pensarmos em situações mais comezinhas, talvez tenhamos menos certezas (e a certeza é inimiga do pensamento). Como refere o meu amigo Timóteo Shel, a propósito da honestidade de Daniel Oliveira, ao dizer que concorda com algumas decisões de Bagão Félix, em contraponto com Pedro Adão e Silva, que continua a «a disparar cegamente a torto e a direito em tudo o que Bagão faz», há uma «diferença entre um novo modo de fazer política, em que se reconhece o que é certo e o que está errado, e a velha maneira de fazer política em que tudo o que o partido adversário faz é mau e tudo o que nós fazemos é bom (e) encontra-se aqui retratada com uma nitidez impressionante. A diferença entre a inteligência e o sectarismo. Salvo meia dúzia de fanáticos, poucas pessoas considerarão que o partido em que votam está sempre certo e os outros sempre errados». Ora, neste último ponto, não concordo com o Timóteo Shel. Não me parece que sejam apenas «meia dúzia de fanáticos». Se pensarmos bem nos politiquinhos profissionais que conhecemos (em especial dos profissionaizinhos da política, essa gente parasita que vive das intrigas, do servilismo, abutres à espera de oportunidade, usurários da ganância dos outros, capazes de tudo por subir mais um degrau na escada partidária e das benesses que o partido lhes dá), nos militantes dos partidos políticos, nos indefectíveis da sua associação / agência de empregos, vemos que são um pouco mais que meia dúzia. A luta política resume-se aqui à defesa clubística do seu partido, alheia às convicções, aos valores, à ética ou a qualquer arremedo de pensamento.
Só neste meio (e poderia falar de outros, onde haja um qualquer poder a exercer), conheço demasiados potenciais Hitlerzinhos (e talvez, noutras circunstâncias, eu próprio seja um), a quem só falta o poder desmedido para lhes potenciar as pequenas crueldades que já fazem no uso dos ridículos poderes em que estão investidos.
Não ouvir
Mas nós, os bonzinhos, nada temos a ver com esta gente. Nós somos sensíveis, apreciamos arte, fazemos festas às crianças e repugnamo-nos com as imagens de sangue nos telejornais. O Hitler era um monstro. Desumano. Mas. «Podia ser muito charmoso com as mulheres, e tender a ser terno com as crianças», diz Hirschbiegel. «Tinha uma vontade enorme, ao mesmo tempo que tinha um espantoso e incondicional desejo de destruir. A minha contribuição é a de poder suscitar novas questões. Colocá-las não quer dizer que o minimize como homem, que tenha dele uma nova leitura, que o represente de uma forma simpática. É um absurdo total. Se a acharem como simpática, é porque não ouvem».

6 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Reflexão pertinente, actual e tão próxima de algumas pessoas que vamos encontrando, não é CC?
Foi uma questão que coloquei a mim mesmo bastas vezes e até a aflorei aqui.

o net pulha

21 de setembro de 2004 às 12:06  
Blogger Bastet said...

Ou recorrendo à sabedoria popular: "não sirvas a quem serviu não peças a quem pediu" - e porquê? Porque quando muitos dos seres humanos são catapultados para os lugares e/ou situações que sempre secretamente invejaram, investem-se de uma atitude despótica e terrivelmente(des)humana. O poder, a par com a fé ou convicção fanaticamente agarradas por quem (como a grande maioria) se sente perdido ou arredado do sentido da vida e dos valores mais básicos que ao longo da história foram por necessidade impostos por lei e penalidades no receio fundado da sua violação, são poderosos alucinogéneos que vão revelando o que de pior reside na alma humana.

21 de setembro de 2004 às 12:36  
Blogger Bastet said...

Para concluir: A anarquia é por algumas destas razões aduzidas a mais bela utopia.

21 de setembro de 2004 às 12:38  
Blogger forass said...

Ora aqui está um assunto que várias vezes levantei em conversas, e até tiro um pedaço do teu texto, para fundamentar (espero que não te importes CC):"Quantos de nós podemos assegurar, por exemplo, que, nas mesmas circunstâncias (o tempo, o lugar, a educação, etc.), não seríamos apoiantes de Hitler na Alemanha dos anos 30? Quantos de nós não seríamos apoiantes desse monstro desumano? Ou, num qualquer país do Médio Oriente, nascidos numa família muçulmana, quantos não seríamos seduzidos pelos cânticos paradisíacos do Hamas?"

Basta de fundamentalismos!
As utopias/doutrinas mais básicas, são as mais perigosas.

Concordo plenamente contigo Bastet: "A anarquia é por algumas destas razões aduzidas a mais bela utopia."

21 de setembro de 2004 às 14:25  
Blogger macho latino said...

Diga-se o que se disser o Hitler era um gajo com um grande par de tomates. De macho para macho acho que o gajo os tinha negros. E depois os outros panascas que até estavam com ele armaram em maricas e deram de frosques.

22 de setembro de 2004 às 12:03  
Blogger a-bordo said...

parabens pelo post. é bom que nos lembrem estas coisas, para que não pensemos como tantas vezes o fazemos que estas personagens são de ficção.

22 de setembro de 2004 às 16:32  

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